A CIDADE DE AREIA

ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA

Uma cidade de tradições emancipacionistas como Areia não podia ficar à margem da grande cruzada benemérita que se empreendia no país em prol da libertação dos escravos. Com efeito, a campanha abolicionista marcou profundamente sua história, tendo sido o único município paraibano a antecipar-se à Lei Áurea de 13 de maio de 1888. Realmente no dia 22 de abril do mesmo ano, foram alforriados os três últimos escravos que ainda existiam em Areia. Entretanto o dia 3 de maio é que foi escolhido oficialmente para, em pública solenidade, a Câmara Municipal, declarar remido o Município em meio à grande regozijo popular. Foi a festa sem precedentes na história de Areia. Durante quatro dias a cidade vibrou contagiada de ardor cívico. A nota mais alta das manifestações populares era ver libertos e ex-senhores confraternizados em igual expansão de júbilo, até as lágrimas de emoção.

Já muito antes da instituição da Lei do Ventre Livre, em Areia, um rico proprietário, José Alves de Lima, dignificava-se como precursor do abolicionismo, libertando todos os seus escravos, legando-lhes ainda metade de sua fortuna.
Anos mais tarde, o farmacêutico Manoel da silva, homem de extraordinário valor, tornou-se o líder abolicionista em sua terra. Dedicado integralmente a nobre causa fundou uma sociedade “sui generis” nas províncias do norte – a “Emancipadora Areiense” – destinadas a promover a defesa e emancipação do escravo. Em 1884 foi aberto um “Livro de Honra da Emancipadora Areiense”, uma preciosidade que ainda hoje se conserva na biblioteca Irineu Pinto do Instituto histórico e Geográfico Paraibano. Confeccionado à mão em legítimo papel inglês, capa de veludo bordado a ouro, nele estão inscritos os nomes dos seus associados e registros importantes da original agremiação.

Por essa época circulava em Areia um periódico, “O Areiense”, que colaborando com o movimento publicava gratuitamente assuntos pertinentes à Emancipadora. Com o intuito de ativar a propaganda abolicionista, Manoel da Silva, fundou, sob sua responsabilidade, outro jornal – “Verdade” – que depois viria ser um arauto das idéias republicanas.
Nessa jornada gloriosa, o paladino da liberdade contou com uma plêiade de excelentes colaboradores – Rodolfo Pires de Melo, poeta da abolição; Firmino Alves da Costa, um pioneiro do movimento; Francisco Xavier Junior, orador doutrinário; Simão Patrício da Costa, proprietário do Sítio São José, asilo seguro para os negros fugitivos; João Coêlho Lisboa, arrebatado de amor à causa, intempestivo no ataque aos reacionários; Padre Sebastião Bastos, Manuel Gomes da Cunha Lima e muitos outros. A Câmara Municipal também aderiu ao movimento criando um imposto sobre escravos que objetivava apressar a emancipação dos mesmos.

No Livro de Honra da Emancipadora Areiense o poeta Rodolfo Pires escreveu ao ensejo das comemorações do dia 3 de maio – “Eu te saúdo, pátria estremecida e rogo que nunca olvides esta súplica. Como não ficarão orgulhosos todos os teus filhos que, distantes de ti, suportaram saudades, ao ouvirem teu nome nobremente apregoado pelo feito glorioso do dia de hoje.” De fato isso aconteceu – Joaquim Silva, então residente na Capital da Província enviou aos responsáveis pela Emancipadora Areiense uma expressiva carta em que confessava ter chorado com a auspiciosa notícia. Pedro Américo estando em Veneza, na ocasião, ao ser cientificado do ocorrido, expressou também seu júbilo de areiense numa bonita saudação aos conterrâneos.



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